terça-feira, 27 de outubro de 2009

CARLOS DRUMOND DE ANDRADE E SUA OBRA POÉTICA "O ÁPORO"


Carlos Drummond de Andrade (Itabira, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987) foi um poeta, contista e cronista brasileiro.
Nasceu em Minas Gerais, em uma cidade cuja memória viria a permear parte de sua obra, Itabira. Posteriormente, foi estudar em Belo Horizonte e Nova Friburgo com os Jesuítas no colégio Anchieta. Formado em farmácia, com Emílio Moura e outros companheiros, fundou "A Revista", para divulgar o modernismo no Brasil. Durante a maior parte da vida foi funcionário público, embora tenha começado a escrever cedo e prosseguido até seu falecimento, que se deu em 1987 no Rio de Janeiro, doze dias após a morte de sua única filha, a escritora Maria Julieta Drummond de Andrade.[1] Além de poesia, produziu livros infantis, contos e crônicas. isso tudo é verdade
Drummond e o Modernismo Brasileiro

Drummond, como os modernistas, proclama a liberdade das palavras, uma libertação do idioma que autoriza modelação poética à margem das convenções usuais. Segue a libertação proposta por Mário de Andrade; com a instituição do verso livre, acentua-se a libertação do ritmo, mostrando que este não depende de um metro fixo (impulso rítmico). Se dividirmos o Modernismo numa corrente mais lírica e subjetiva e outra mais objetiva e concreta, Drummond faria parte da segunda, ao lado do próprio Mário de Andrade.

Quando se diz que Drummond foi o primeiro grande poeta a se afirmar depois das estréias modernistas, não se está querendo dizer que Drummond seja um modernista. De fato herda a liberdade lingüística, o verso livre, o metro livre, as temáticas cotidianas. Mas vai além. "A obra de Drummond alcança — como Fernando Pessoa ou Jorge de Lima, Herberto Helder ou Murilo Mendes — um coeficiente de solidão, que o desprende do próprio solo da História, levando o leitor a uma atitude livre de referências, ou de marcas ideológicas, ou prospectivas", afirma Alfredo Bosi (1994).

Affonso Romano de Sant'ana costuma estabelecer que a poesia de Carlos Drummond a partir da dialética "eu x mundo", desdobrando-se em três atitudes:

* Eu maior que o mundo — marcada pela poesia irônica
* Eu menor que o mundo — marcada pela poesia social
* Eu igual ao mundo — abrange a poesia metafísica

Sobre a poesia política, algo incipiente até então, deve-se notar o contexto em que Drummond escreve. A civilização que se forma a partir da Guerra Fria está fortemente amarrada ao neocapitalismo, à tecnocracia, às ditaduras de toda sorte, e ressoou dura e secamente no eu artístico do último Drummond, que volta, com freqüência, à aridez desenganada dos primeiros versos: A poesia é incomunicável / Fique quieto no seu canto. / Não ame.

No final da década de 1980, o erotismo ganha espaço na sua poesia até seu último livro.
 Temas típicos da poesia de Drummond

* O Indivíduo: "um eu todo retorcido". O eu lírico na poesia de Drummond é complicado, torturado, estilhaçado. Vale ressaltar que o próprio autor já se definia no primeiro poema de seu primeiro livro (Alguma Poesia) como um gauche, ou seja, alguém desajeitado, deslocado, tímido, posição que marca presença em toda sua obra.
* A Terra Natal: a relação com o lugar de origem, que o indivíduo deixa para se formar.
* A Família: O indivíduo interroga, sem alegria e sem sentimentalismo, a estranha realidade familiar, a família que existe nele próprio.
* Os Amigos: "cantar de amigos" (título que parafraseia com as Cantigas de Amigo). Homenagens a figuras que o poeta admira, próximas ou distantes, de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, de Machado de Assis a Charles Chaplin.
* O Choque Social. O espaço social onde se expressa o indivíduo e as suas limitações face aos outros.
* O Amor: Nada romântico ou sentimental, o amor em Drummond é uma amarga forma de conhecimento dos outros e de si próprio
* A Poesia. O fazer poético aparece como reflexão ao longo da sua poesia.
* Exercícios lúdicos, ou poemas-piada. Jogos com palavras, por vezes de aparente inocência naïf.
* A Existência: a questão de estar-no-mundo.

DENTRE MUITAS OBRAS POÉTICAS E PROSA ....A MAIS FASCINANTE "O ÁPORO"...DO LIVRO (A ROSA DO POVO)




O ÁPORO



Um inseto cava


cava sem alarme

perfurando a terra

sem achar escape.



Que fazer, exausto,

em país bloqueado,

enlace de noite

raiz e minério?



Eis que o labirinto

(oh razão, mistério)

presto se desata:



em verde, sozinha,

antieuclidiana,

uma orquídea forma-se.



Poema




Um inseto cava cava sem alarme perfurando a terra sem achar escape.



Que fazer, exausto, em país bloqueado, enlace de noite raiz e minério?



Eis que o labirinto (oh razão, mistério) presto se desata:



em verde, sozinha, antieuclidiana, uma orquídea forma-se.

 Significado



Tem diversos significados, desde sem saída (da sua origem grega), e sua variação problema difícil de se resolver, até uma espécie de inseto, passando também por um tipo de orquídea. Cada estrofe do poema transcrito acima se foca em um significado da palavra áporo.



A primeira corresponde ao inseto, que cava sem alarme perfurando a terra.



A segunda estrofe fala da aporia, que corresponde a um problema quase sem solução.



A última trata da orquídea.

 Análise



Pode-se analisar o poema como sendo um exemplo de dialética, o qual inicia-se com uma tese (ou fato) seguida por uma antítese (ou negação dessa tese) e por fim apresenta uma síntese, que é a convivência paradoxal dessas duas idéias. Assim, cada estrofe representa também um dos passos descritos. O inseto que cava insistente, porém pacíficamente, sem achar saída da terra é a tese. É seguida por uma antítese, que nega a pacificidade do bichinho, tornando sombrio e sem saída seu ambiente e futuro. Por fim, nasce uma orquídea antieuclideana (contra o criador da geometria, Euclides de Alexandria, o que indica que nasce contra todas as leis da geometria, ou do que se esperava), que é apresentada como a salvação, a solução, em meio ao escuro, à noite.



Por diversas vezes flores são símbolos de solução nos poemas deste livro. No poema "A Flor e a Náusea" também uma frágil flor nasce da loucura, num ambiente inóspito.





Política



Percebe-se ainda no poema uma crítica à situação política do Brasil na época. O livro foi escrito num contexto da ditadura de Getúlio Vargas, a qual o escritor era contra. Neste poema em específico a referência ao contexto histórico está no trecho em país bloqueado, no qual a terra que o inseto cava se confunde com o próprio Brasil.

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